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Conforme combinado, de vez em quando, vou contar histórias de empreendedor. E vou começar com uma minha:

Até os 4 anos de idade, minha família era de classe média-alta. Morávamos próximos à Lagoa Rodrigo de Freitas, zona nobre do Rio de Janeiro. Meu pai tinha um negócio pequeno, porém lucrativo. 

Daí nossa vida teve um revés: meu pai saiu para beber e, na volta, entrou de carro e tudo debaixo de um caminhão.

Para contar a história curta, o acidente atingiu o cérebro. Ele perdeu movimentos e fala. A pequena empresa que ele possuía, era muito dependente dele e acabou quebrando. Perdemos tudo.

Ele fez uma cirurgia na cabeça e, milagrosamente, anos mais tarde, se recuperou, mas o estrago já estava feito. Minha mãe me contou que o apartamento da Lagoa precisou ser vendido para pagar dívidas e a situação só fez piorar. Viramos "nômades", pois vivíamos mudando de endereço, sempre indo para bairros mais "baratos". Quatro anos depois do acidente, estávamos morando em um condomínio habitacional parecido com a Cidade de Deus. 

Nessa época, eu tinha oito anos, quando o lado empreendedor começou a aparecer. Lembro que peguei os brinquedos e revistas em quadrinho que tinha e montei uma barraquinha na porta do meu conjunto e coloquei tudo para vender. 

Mais ou menos nesse mesmo período, estudava em um escola pública chamada Soares Pereira. Fica na Tijuca, em frente a uma pracinha chamada Xavier de Brito. Uma praça em que, aos finais de semana, os pais levam filhos para passear em cavalos, charretes etc. A escola atendia principalmente os moradores das comunidades dos arredores, como Borel, Formiga e Casa Branca. 

Recordo que eu era tão duro, mas tão duro, que durante o recreio era o "pidão" da escola, pois pedia tudo para os outros colegas. "Me dá um gole? ", "Posso pegar um pouquinho dessa pipoca?". Era um saco não ter dinheiro para absolutamente nada. Se não fosse a merenda escolar, estaria "fodido".

Nesse colégio, as crianças tinham aulas diversas para subsistência. Uma dessas aulas era o "clube de ciências", que, dentre outras coisas, ensinava aos menores como cuidar de uma horta. Estava lá eu cavando a terra, quando entra um sujeito e entrega um saco de esterco para a professora que, em troca, paga um valor por isso. Aquele valor parecia para mim uma fortuna. Na verdade, como eu era mega-hiper-duro, qualquer dinheiro parecia muito!

Assim que o sujeito saiu, como um relâmpago, lembrei que esterco era feito de cocô e que do outro lado da rua havia a pracinha com os cavalinhos, que era a maior fábrica de cocô do planeta. Na mesma hora fiz a pergunta para a professora: "Dona Mirtez, você acabou de comprar um saco de esterco. Você gostaria de comprar, pelo mesmo valor, dois sacos, porém do fresquinho?"

Claro que a professora aceitou, pois a proposta era irrecusável: receber o dobro da quantidade, de um produto melhor, pelo mesmo preço.

Vender a ideia foi fácil. O difícil foi depois encher dois sacos de bosta e enfrentar a vergonha de fazer isso com todos os alunos da escola vendo. E naturalmente, muito bullying

Mas logo a situação inverteu, pois no próximo dia de aula, de "pidão", passei a fornecedor, pois tinha grana suficiente para comprar o que eu quisesse na hora do recreio. Rapidamente, o bullying foi convertido em certa admiração velada. 

Desse história tirei alguns aprendizados:

  1. Oportunidades estão por aí, só ficar atento
     
  2. Você não deve ter vergonha de trabalhar. Mesmo se for catando merda.
     
  3. Não existe essa de que "não vale a pena". Para empreender, comece com o que aparecer e use isso para ir aprendendo
     
  4. Fazer acontecer contagia e o Brasil precisa de empreendedores. Por isso, empreenda.

EVQV!

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